Facchini

A detecção de sono em motoristas e o fator privacidade

Caminhoneiro de boné e roupa de frio dentro da cabine dirigindo Scania 124
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A Europa mostra o caminho a seguir quando o assunto é prevenção a acidentes e valorização da vida nas ruas e estradas do velho continente. A partir do próximo ano, entrará em vigor o pacote de regulamentações do Euro NCAP (programa europeu de segurança em automóveis), que obrigará que todos os veículos saiam das fábricas da União Europeia com algum tipo de sistema de monitoramento de fadiga e sono instalados como padrão de medida de segurança.


Assim como o cinto de segurança e o airbag quebraram importantes paradigmas como proteções essenciais a motoristas, a câmera será ainda mais eficaz, pois protegerá não somente os ocupantes dos veículos, mas também pedestres que estarão mais seguros, beneficiados pela iminente redução de acidentes.

De acordo com dados da Comissão Europeia, até 50% de todos os acidentes no continente estão relacionados a fadiga ou distração. Com as 11 novas adições de segurança (a principal é a tecnologia que detecta sono), destinadas a prevenir a deterioração do estado do condutor e minimizar a possibilidade de acidentes, o Bloco estima que estes novos regulamentos serão capazes de salvar mais de 25 mil vidas e evitarem mais de 140 mil ferimentos graves até 2038.

Se na Europa os avanços na implantação desses sistemas começam a se tornar realidade, no Brasil o ambiente é de estagnação e lamento. A sociedade vive à margem desses debates, parlamentares não priorizam o tema em suas agendas e a indústria age de modo passivo, aguardando por uma lei que os obrigue a seguir normativas como as europeias.

Quando o assunto é tecnologia que atuará na leitura dos movimentos oculares, uma das críticas mais rasas e sem fundamentos que surgem de opositores é sobre a privacidade. Primeiramente, é preciso que se faça uma distinção sobre o monitoramento de motoristas profissionais, dos que utilizam o veículo próprio, seja para passeio ou como transporte para acessar o trabalho.


No caso dos profissionais, já há no Brasil tecnologia aplicada, por exemplo, na indústria de mineração, em operações fechadas no modelo chamado de caminhões fora-de-estrada. Trata-se de uma tecnologia composta de um óculos e um tablet que alertam, em tempo real, os sinais iniciais de sonolência, tanto para o motorista como a controladores localizados em uma cabine de segurança dentro da mina. O sistema é preventivo e gera um sinal de atenção com uma antecedência de cerca de 15 a 20 minutos antes que o operador chegue ao micro cochilo. A leitura funciona por meio de um sensor que analisa os reflexos das pálpebras e um processador integrado que digitaliza os reflexos a 500 vezes por segundo.

Os resultados são os mais expressivos do mercado global, reduzindo a ocorrência de acidentes em até 97%, protegendo os colaboradores e a produtividade da empresa. Evidente, essa tecnologia foi desenvolvida para não só detectar e agir de forma preditiva, bem como para colher dados capazes de gerar minuciosos relatórios de desempenho, municiando avaliações para futuras identificações de problemas de saúde dos colaboradores. A coleta de dados sobre a atuação do condutor é essencial.

Para outros tipos de atividades como a de motoristas de ônibus de linhas comerciais ou a de caminhoneiros, o monitoramento, embora feito de forma diferente por não haver a cabine de controle próxima à operação, também visa a segurança. Se rastreadores veiculares já são compreendidos como um aliado contra maus condutores ou até mesmo sequestros, os sistemas que monitoram fadiga devem ser ainda mais valorizados pois preservam diretamente a vida dos próprios condutores. Hoje, a cobertura e velocidade de internet ainda não permitem que a avaliação seja monitorada em tempo integral, mas é questão de tempo para que isso se torne realidade. Hoje, a função dos sensores embarcados é a de fazerem a captação e alertam o motorista e o ocorrido ficará registrado posteriormente para a avaliação da gestão da frota.


Carros de passeios
Essa mesma tecnologia ou similar também será a que equipará os carros europeus novos no ano que vem. Há alguns críticos equivocados que afirmam que por se tratar de um mecanismo eletrônico sensorial, capaz de manter os registros dos ocorridos, isso poderá ser utilizado como prova concreta de que o motorista realmente estava com fadiga ou sono e, portanto, foi o culpado do acidente por imprudência.

Essa preocupação entre motoristas irresponsáveis tem como base, por exemplo, legislações rigorosas como a de dois estados norte-americanos: Nova Jersey e Arkansas. Por lá, as regras de trânsito criminalizam condutores que se arriscam a guiar em condições de fadiga ou sono. Em Nova Jersey, por exemplo, a condução ‘conscientemente sonolenta’ pode levar a pessoa a ser acusada de homicídio veicular. O estatuto da ‘Lei de Maggie’ define como fadiga estar sem dormir por um período superior a 24 horas consecutivas. O infrator é cobrado no mesmo nível que um condutor embriagado.


Se houvesse essa lei na Europa, os equipamentos que passarão a constar nos veículos em 2024 poderiam ser utilizados como uma fonte de prova da irresponsabilidade. Uma espécie de ‘caixa preta do sono’. Esse argumento se disfarça como uma reclamação que infringiria a privacidade dos motoristas. Não há lucidez nessa retórica. No Brasil, infelizmente a aprovação da obrigatoriedade ainda está longe da realidade e mais distante ainda está aprovações rigorosas como a desses estados americanos que responsabilizam criminalmente o condutor.

E esperamos que a sociedade cobre de seus legisladores ações concretas que estimulem a educação de motoristas quanto ao problema de sono ou fadiga, que eles entendam que é preciso parar para um descanso ou que entreguem o volante a outro condutor. Tecnologias embarcadas como a de monitoramento nos veículos tem uma só missão: salvar vidas!


ARTIGO: Sidnei Canhedo é Mestre em Saúde Ambiental e Gestor da Optalert, biotech australiana, líder mundial em tecnologia de controle de fadigas.

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