Facchini

Mulheres provam que dirigir caminhão não é apenas para homens

Ivone Ferreira, advogada, é uma mulher vaidosa. Antes de sair para trabalhar, capricha na maquiagem, no perfume, nos acessórios. E, então, pega a estrada. Sim, porque ainda que goste do mundo das leis, é dirigindo um caminhão cegonha que ganha a vida. 
A escolha foi feita há dois anos. Ivone trabalhava em um escritório de advocacia, mas resolveu seguir os passos do marido, caminhoneiro há 23 anos. “Eu comecei a viajar com ele e acabei aprendendo as manhas. Hoje eu ganho mais que no meu antigo emprego. Meu patrão é meu marido, e tudo o que ganho fica para nós”, conta. Não que ela tenha desistido completamente de atuar na área do Direito, mas o fato é que gosta do que faz agora: “me agrada a sensação de liberdade, de dominar um gigante”. 
Ela nota que as mulheres estão cada vez mais presentes nesse mercado. E complementa que, apesar dos estereótipos, as novas motoristas estão aí para provar que, mesmo em um ambiente mais masculino, elas continuam bem femininas: “já se foi o tempo em que só se via mulheres mal cuidadas nas estradas. Tem algumas lindas, antenadas na moda. Isso mostra que trabalhar em uma profissão mais masculina não faz com que a gente deixe de ter vaidade”.
Deixar o conforto de casa nem sempre é fácil. Na maior parte das vezes, os banheiros não são bons, é difícil encontrar um lugar adequado para dormir e há uma preocupação com a segurança. Mas as dificuldades não intimidam as novas profissionais do setor. 
“É preciso coragem. Se não tiver, não consegue não” diz Luciana Pereira (na foto à direita), que se sente destinada ao ofício desde pequena. “Ao invés de brincar de boneca, eu brincava com um caminhão”, conta. A influência veio do pai e dos tios. Depois, do marido, com quem foi casada por 17 anos, de quem partiu o maior incentivo para encarar os desafios. Hoje, apesar de a saudade apertar quando precisa ficar longe das filhas, de 11 e seis anos, gosta de passar os dias na estrada. “O que eu mais gosto é de estar dentro do caminhão. É ele que me fascina, nem tem como explicar”. 
O preconceito é uma realidade presente, às vezes mais, às vezes menos. “Às vezes, nós somos criticadas, mas lidar com isso depende da gente. Comigo nunca aconteceu nada. Mas tenho amigas que já tiveram que lidar com comentários maldosos”, diz Luciana. 
Ivone complementa: “tem sempre os motoristas que tiram onda com piadinhas de mau gosto”. Porém, nada as intimida. A admiração que despertam em muitas pessoas sempre marca mais e serve de estímulo para continuar na atividade. 

Interesse está maior
O presidente da Federação Interestadual das Empresas de Transportes de Cargas (Fenatac), José Hélio Fernandes, reforça que as mulheres são presença cada vez mais frequente no transporte de cargas. Mas a maioria está em áreas urbanas, muitas por questões de segurança. Outra prova de que o interesse pelo setor cresce entre as motoristas é o projeto Primeira Habilitação para o Transporte, lançado em fevereiro deste ano pelo Sest Senat. Dos 132 mil inscritos na iniciativa, 44,7% foram do sexo feminino, o equivalente a 33 mil pessoas. O projeto vai fornecer a primeira carteira nacional de habilitação (CNH) a 50 mil jovens a fim de qualificar mão de obra para o setor.  
Gilvana de Souza (na foto à esquerda), moradora de Videira (SC), iniciou na profissão em viagens curtas. Apesar de conhecer os desafios da estrada, não vê a hora de mudar a CNH, da categoria D para a E, e encarar distâncias mais longas. “Nunca gostei de ficar parada, e a estrada me fascina”, relembrando que, na infância, olhava para as carretas e já avisava a mãe que, um dia, dirigiria “um caminhão grandão” como aqueles. Ela considera que o estigma do sexo frágil torna, às vezes, o ramo ainda mais desafiador. Porém, reforça: “a realidade também está mudando. Hoje em dia, tem mulheres incríveis no ‘tapetão’ [no asfalto], e até os caminhões estão mais modernos. Tudo ajuda as mulheres”.
FONTE: Agência CNT 
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