Sozinhos na estrada, caminhoneiros se sentem “pessoas descartáveis”

A enorme parada de caminhões da Petro é um oásis de asfalto iluminado por neon nas estradas dos Estados Unidos. Ela atrai motoristas de semi-reboques com duchas, máquinas de lavar roupa, uma barbearia e até mesmo uma loja de facas. “Somente para motoristas profissionais”, diz a placa acima das mesas do restaurante Iron Skillet, onde a maioria dos caminhoneiros se senta sozinho, carregando consigo a solidão de seus trabalhos para um ambiente que normalmente seria social.
Dirigir um caminhão-reboque de longa distância é tão corriqueiro quanto os itens que os motoristas transportam, que vão desde jeans até mirtilos, passando por papel higiênico para o Wal-Mart e maquinários agrícolas destinados à exportação. Há 1,7 milhão de homens e mulheres trabalhando como motoristas de longas distâncias no país. No entanto, os caminhoneiros, do alto de suas cabines, estão literalmente fora das vistas da maioria dos americanos.
Em um momento em que o presidente Donald Trump acende uma discussão nacional sobre o trabalho operário, até mesmo subindo em um caminhão durante um evento da Casa Branca, conduzir caminhões, que no passado esteve entre os mais bem pagos dentre esses empregos, se tornou um trabalho mal remunerado, extenuante e insalubre. A rotatividade em grandes frotas prestadoras de serviços de transporte de cargas —pilar da indústria— gira em torno de impressionantes 80% por ano, de acordo com uma associação do setor. A perspectiva é de um futuro no qual caminhões autônomos ameaçarão o ganha-pão de muitos motoristas.
Mas a atividade continua atraindo vários novatos, algo que reflete a falta de boas alternativas para trabalhadores sem um nível maior de instrução. Alguns deles perderam empregos mais bem pagos em fábricas, no constante processo de desindustrialização dos EUA. Outros passaram anos tentando entrar na classe média em empregos de salário mínimo em redes de fast-food ou de varejo. Para eles, dirigir caminhões é um progresso.
O “The New York Times” conversou recentemente com caminhoneiros ao longo de dois dias na parada da Petro, que fica na intersecção da Interestadual 57, entre Chicago e Memphis, no Tennessee, e a Interestadual 70, entre Indianapolis e Saint Louis. As entrevistas foram editadas e resumidas.
A caminhoneira Ayisha Gomez na parada em Effingham
“O relógio está correndo”
Greg Simmons, 54, Hastings, Flórida. Dirige há 27 anos.
Somos descartáveis. Ninguém se importa conosco. A percepção que todos têm de um caminhoneiro é de que atrapalhamos o trânsito e poluímos o meio ambiente.
Somos como os policiais. Todos precisam de nós, mas ninguém nos quer.

NYT: Os caminhoneiros em geral são pagos por quilômetro rodado, não por hora. As normais federais dizem que eles podem dirigir até 11 horas dentro de uma janela de 14 horas, e então precisam parar para uma pausa de 10 horas. Muitos desaprovam a regra das 14 horas.
Todos estão sempre olhando para o relógio. Se você fica preso em um congestionamento por 4 horas, são 4 horas de sua produtividade que vão embora. Ou, se você vai buscar uma carga e as pessoas levam cinco horas e meia para carregar, elas mataram cinco horas e meia do seu dia.
O relógio está correndo, cara, preciso ir! A regra das 14 horas criou uma pressão fora do normal. Os mais jovens, depois de dois ou três meses, mandam tudo às favas.

Por que você continua dirigindo?
Porque aos 54 anos de idade, ninguém mais quer você. Não consigo me capacitar para mais nada de diferente. Os mais velhos meio que ficam presos. Para cada um que se dá bem, outros 30 são destruídos pela profissão.
O caminhoneiro Michael Gallant, que dirige há menos de um ano, na parada em Effingham
“Algo que sempre quis fazer”
Michael Gallant, 22, Biddeford, Maine. Dirige há oito meses.
Dirigir caminhões é algo que sempre quis fazer desde que era criança. Adoro isso. Tem vezes em que é um trabalho meio desagradável, mas tem outras que é ótimo. No geral, estou muito feliz com meu trabalho. Não mudaria nada nele.
Como um jovem motorista, você se preocupa com a possibilidade de caminhões autônomos tomarem conta da indústria?
É um assunto delicado. Não pensei muito nisso de fato. Acho que levará um tempo até chegar a esse ponto. As pessoas ainda precisam de um motorista para se certificar de que não acontecerá nada de errado com esse caminhão. Não acho que tudo vá se tornar autônomo.
A caminhoneira Patricia Moore, que trabalha fazendo longo trajetos há 15 anos, na parada em Effingham
“Meu último marido odiava que eu fosse caminhoneira”
Patricia Moore, 60, Oak Grove, Louisiana. Dirige há 15 anos.
Faz 10 anos que não estou casada. Meu último marido odiava que eu fosse caminhoneira. Ele costumava brigar comigo pelo telefone enquanto eu estava na estrada. Eu adorava quando não tinha sinal.
Era ou meu trabalho ou a bebedeira dele, então escolhi meu trabalho.

Qual a melhor parte de ser caminhoneira?
O salário.
Um amigo meu disse, “Se você está aqui na estrada, como é que você não ganha mais dinheiro?”
Todos acham que é glamoroso. Sim, a gente acaba conhecendo o país inteiro. Só que a 100km/h, da estrada.

Como está sua saúde?
Terrível. Não conseguem descobrir o que tenho no estômago. A gente come muita besteira. Noite passada, por exemplo, comi no Subway. É porcaria. Em 15 anos, engordei 30 kg.
No mês passado, Moore parou de dirigir caminhões por longos trajetos e se mudou para Midland, no Texas, para ficar mais próxima de um filho, onde ela hoje dirige um semi-reboque que atende a campos de petróleo do oeste do Texas. Em uma entrevista por telefone, ela disse que o trabalho lhe permite voltar para casa todas as noites, e tem outros benefícios.
Melhorei minha vida, quase dobrei meu salário. Comprei para mim um carro novinho, um Chevrolet 2017, dois dias depois de chegar a esta cidade. Minha saúde também está melhor. Emagreci um pouco. Agora faço minha própria comida.
Christer Maclin jogo em jogo eletrônico na parada em Effingham
“A liberdade. Meu Deus, você não imagina”
Daniel McMillan, 33, e Susan Zimmerman, 48, Danville, Virginia. Dirigem há dois anos.
Susan: Nós nos conhecemos trabalhando no McDonald’s. Dirigir caminhão foi meu primeiro sonho. Criei minha filha e ela ia para a faculdade, eu precisava melhorar minha vida. Tendo trabalhado no McDonald’s por 10 anos, tentando criar minha filha com um salário de McDonald’s, só conseguiria contar com o período de declaração de imposto para comprar coisas para ela. O Daniel me incentivou a tirar uma habilitação profissional.
Daniel: Ela voltou e me pegou. Subi no caminhão dela e ela me treinou. Depois tirei minha habilitação profissional.
Susan: Eu dirijo oito horas, daí ele dirige oito horas, e então paramos. Agora somos operadores-proprietários. Somos uma empresa.

As pessoas dizem que é solitária a vida na estrada, mas para um casal deve ser diferente.
Daniel: Temos amigos que eram caminhoneiros e a vida doméstica deles acabou.
Susan: Eram traídos pelos cônjuges.
Daniel: Os filhos endoidando, indo para a cadeia.

Qual a melhor parte de ser caminhoneiro?
Daniel: A liberdade. Meu Deus, você não imagina.
Susan: Os belos dias de Sol.
FONTE: UOL 
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