A gente morre na BR-163

Milhares de pessoas passam dias atolados em um lamaçal na beira da floresta amazônica. A Força Aérea Brasileira leva-lhes comida e água, distribuídas pelo Exército.
Essa zona de calamidade é a estrada por onde passa boa parte da safra gigante de grãos, essa que ajuda a derrubar a inflação, quiçá os juros, e dá algum alento à economia.
Esse lodo da incompetência dos governos se formou outra vez em um trecho paraense da Cuiabá-Santarém, parte de BR-163. Durante quase duas semanas, milhares de caminhoneiros ficaram presos em congestionamentos que chegaram a 50 km.
Caminhões parados fazem falta no escoamento da safra, que entope os silos em Mato Grosso. A soja brota nas caçambas dos veículos atolados.
No fim da semana, o governo de Michel Temer constituiu um "grupo de trabalho" para dar solução "definitiva" ao rio de lama periódico que é a BR-163. Em 2004, Lula criara um "grupo de trabalho" para dar um jeito nisso que faz 46 anos é um projeto de "salvação logística".
Os caminhões levavam grãos de Mato Grosso para o porto fluvial de Miritituba, no Tapajós, Pará, onde até outro dia apenas se pescava tucunaré. Desde 2014, a soja lá é embarcada em chatas para portos maiores. Cortam caminho, poupam cerca de dois dias da viagem que é o embarque de 70% da safra de Mato Grosso em Santos e Paranaguá.
Mesmo com atrasos, os 750 km da estrada entre a divisa com Mato Grosso e Miritituba receberam algo parecido com asfalto, apesar das pontes de madeira escoradas com gambiarras para suportar caminhões de 50 toneladas. Desde 2005, a cada três anos se diz que a obra ficaria pronta. Faltam uns 100 km.
O governo Temer promete leiloar, no segundo semestre, uma estrada de ferro para levar a produção agropecuária de Mato Grosso justamente até Miritituba, a Ferrogrão.
Também pretende licitar um resto da Ferrovia Norte-Sul, incompleta e corrupta faz 30 anos, e a Oeste-Leste (do TO à BA), iniciada por Lula em 2010, abandonada por Dilma Rousseff e adiada talvez para 2021. Chineses passaram o Carnaval na Bahia se dizendo interessados. Hum.
São exemplos da incapacidade de governo e Congresso de planejar, de fazer cronogramas de obras e despesas. Não há norma orçamentária nem inteligência para evitar congestionamentos de projetos, que acabam todos malparados.
Multinacionais que dominam o comércio mundial de grãos operam o embarque em Miritituba e compraram terras para expandir o negócio, de interesse de um dos reis da soja, Blairo Maggi, aliás ministro da Agricultura. Nem assim. É um caso especial de inépcia. Nem um multilobby forte e até sensato conseguiu levar a empreitada adiante.
Quem trata de Miritituba ou mesmo do porto de Santarém, mais abaixo no Tapajós, parece falar da roça de Cachimbinha da Serra. Não é o caso.
Além de baratear o frete dos produtos agropecuários do centro-norte e a importação de insumos, um corredor de transporte decente integraria a Zona Franca de Manaus e criaria mais negócios pelo caminho. O caso merece ainda mais atenção porque, sem mais, essa empreitada em breve pode se transformar em mais uma frente agressiva de devastação ambiental e social.
Quem liga? O Brasil não conhece o Brasil.
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