Medo da violência muda rotina de caminhoneiros nas estradas

Todo dia, ao pegar o volante, Luiz*, de 24 anos, realiza o sonho de infância. Projeto de vida alimentado por canções de Roberto Carlos, como “Caminhoneiro”, seriados como “Carga pesada” e a sensação de liberdade nas estradas, que hoje viraram um pesadelo para os motoristas do setor. Após sofrer três assaltos, dois deles obrigado por bandidos a seguir com seu caminhão para o Complexo do Chapadão, o rapaz planeja deixar a profissão.
Enquanto não aposenta o sonho, é obrigado a abandonar as estradas pelo menos nas madrugadas. Nos postos de gasolina ao longo da Via Dutra, caminhoneiros relatam o medo de trafegar nas vias expressas do Rio, especialmente ao longo da Avenida Brasil e em alguns pontos de abastecimento de cargas na Baixada Fluminense. A maioria para de circular às 22h e só volta depois das 6h. Nesse período, os ataques de bandidos são mais frequentes.
Só em novembro, foram registrados 1.102 roubos de cargas no estado, segundo o Instituto de Segurança Pública. Um aumento de 61% em relação ao mesmo período do ano passado, quando houve 684 notificações do crime. O número de ataques no Rio supera até o recorde de ocorrências em São Paulo, registrado em agosto: 917 roubos de cargas de caminhões. Nesse mês, foram 757 ocorrências nas estradas fluminenses.
No dia 30 de agosto, João*, de 37 anos, aguardava para descarregar alimentos no depósito em São João de Meriti, quando foi abordado por bandidos. Eram 5h25. Um homem apontou o revólver e o obrigou a abrir a porta do carona. Arrancou o rastreador e pegou a chave do veículo. João* e a mulher, que o acompanhava na viagem, foram levados pelo bando para a Praia da Rosa, na Ilha do Governador, em um Celta.
— Eles ficaram nos observando até as 15h. O caminhão foi encontrado às 9h em Vilar dos Teles. Nem mexeram na carga. Para mim, pegaram a carga errada. Acharam que era cerveja.
Adolescentes armados nas estradas
No dia 14, um adolescente de 12 anos foi apreendido após fazer um motorista refém na Via Dutra. A ocorrência foi registrada na 64ª DP (São João de Meriti). Segundo policiais, são tão comuns crimes envolvendo menores que, nos plantões, é destacada uma equipe para encaminhá-los aos orgãos da Justiça.
De acordo com os agentes, os produtos mais cobiçados são eletroeletrônicos, repartidos pelo bando, e alimentos como carnes nobres. Se antes quadrilhas independentes atuavam no roubo de cargas, hoje o crime é praticado pelos próprios traficantes. Cada vez mais jovens. E armados.
*Os nomes são fictícios para proteger a identidade dos caminhoneiros.

Depoimentos:
Luiz*: Caminhoneiro, fluminense, de 24 anos
“Meu tio era caminhoneiro, eu ouvia a música do Roberto Carlos e sonhava. Ganhava-se dinheiro e era uma profissão respeitada. Hoje, está muito arriscado. Minha mãe é doida para que eu pare. Já trabalho há cinco anos no caminhão, mas, ano que vem, quero parar. É muita violência. Já fui assaltado três vezes. Há um ano, mais um menos, os bandidos me cercaram perto do Ceasa e me mandaram seguir para o Chapadão. Quando viram que a carga era de fraldas, me liberaram. Isso aconteceu duas vezes. Também já fui roubado por um menor armado na Avenida Brasil que escalou o caminhão e levou dinheiro e celular.”

Paulo*: Caminhoneiro, carioca, de 44 anos
“Antes de sair, eu peço ao Papai do Céu, sou devoto de São Sebastião, São Jorge. Não tem como evitar os assaltos. Eles vêm pesado. Já pararam em frente à Polícia Rodoviária Federal e levaram as carretas. A cerveja é a garota dos olhos deles. Como sabem que o caminhão está levando bebida? Será que eles têm bola de cristal? Já fui assaltado três vezes, mas não penso em largar. Estou trabalhando nisso desde 1991. E para onde correr tem assalto. A maioria é moleque. Não é em qualquer posto que a gente pode parar. Já botaram fuzil para fora e me mandaram parar. Viram que eu estava vazio e me mandaram embora.”
FONTE: Extra
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