'Chapas' sofrem com crise econômica e ainda enfrentam preconceito

Eles ficam frequentemente às margens das rodovias em bancos e cabanas improvisadas. Sempre “vivendo pela fé”, que é como estes trabalhadores mesmos definem sua rotina, precisam da sorte para conseguirem algum serviço e, consequentemente, levarem o sustendo para as suas famílias. Muitas vezes incompreendido e até discriminado, o “chapa” encara o dia a dia com bom humor, apesar de a crise econômica que atinge o país também ter afetado a profissão.
Popularmente conhecidos como “chapas”, os movimentadores de cargas, como também são chamados, vivem do trabalho informal. Normalmente são encontrados às margens das rodovias e estão sempre à disposição dos caminhoneiros que precisam de mão de obra para o descarregamento dos veículos pesados.
“Vivemos pela fé. Ficamos na rodovia acenando para os motoristas que passam pela pista. Os que precisam de ajuda param e a negociação é feita na hora. Normalmente recebemos R$ 100 por serviço”, explicou João Aparecido Orlandi, de 57 anos, que há 15 anos trabalha como "chapa" na Rodovia Raposo Tavares (SP-270), na altura do distrito de Espigão, no município de Regente Feijó.
O caminhoneiro José Félix dos Santos, de 54 anos, mora em São Paulo (SP) e contratou, por R$ 100, o "chapa" Valdinei Gonçalves, de 46 anos, para ajudá-lo a descarregar caixas com tampas de garrafa pet em uma empresa de Presidente Prudente. “Eu venho de Recife [PE] e não conheço bem a cidade, então, o 'chapa' também me ajuda a dirigir pelo local”, destacou Santos ao G1.
Para atrair a atenção, muitos "chapas" acenam para os caminhoneiros. Mas o que para muitos seria apenas um educado cumprimento, para eles, é uma demostração de disposição. “O movimento que fazemos com o braço é para conquistar o motorista, porque senão ele pode interpretar que estamos cansados e pegam outro 'chapa' mais para frente”, explicou Juliano dos Santos, de 37 anos, que há 11 anos trabalha na Rodovia Raposo Tavares, em Presidente Prudente.

Urna funerária
Ao G1, os movimentadores de mercadorias revelaram que carregam e descarregam todo tipo de material. “O mais difícil de descarregar é roda de caminhão. São pesadas, difíceis de pegar e cansam a gente”, pontuou Júlio César Frank Linho, de 57 anos, que há 30 anos trabalha nesta área.
“Descarregamos muitos caixões funerários. Eles são fabricados longe, até mesmo em outro estado, e, quando o motorista chega aqui, nos chama para descarregar as urnas na cidade. Isso é bem comum”, revelou João Gilberto Caravina, de 53 anos, que há 21 anos trabalha como "chapa".
Dificuldades
Além de os trabalhadores enfrentarem condições climáticas adversas nas rodovias e da incerteza do serviço, um dos fatores que têm dificultado a renda dos movimentadores de carga é a crise econômica que o país enfrenta. Para eles, os anos de 2015 e 2016 têm sido os piores para a função.
“Com essa crise, muita gente deixou de comprar. Se a população não compra, não tem transporte. Há três anos nós fazíamos cerca de quatro serviços por dia, enquanto hoje é difícil de fazer dois por semana. Estou aqui no meu ponto há 10 horas e não consegui nenhum serviço. Desse jeito, fica difícil sustentar a família”, desabafou Lírio Fagundes Jaques, de 59 anos, que trabalha na área há 20 anos.
“Antes, a gente conseguia tirar mais de R$ 3 mil por mês. Hoje, a gente se esforça para chegar a R$ 2 mil”, completou Gilberto Caravina ao G1.
Outro problema enfrentado são os populares "calotes". “Tem motorista que leva a gente para longe e depois diz que vai tomar banho e some sem pagar nada. Ai temos de voltar para casa com o nosso próprio dinheiro ou por carona”, revelou Alcides Pereira Neto, de 46 anos, que trabalha como "chapa" há 35 anos.
A falta de reconhecimento e o preconceito são dificuldades também apontadas pelos trabalhadores. “Nossa profissão não é reconhecida, mas ela é muito importante. Quando o consumidor vai pegar o produto na gôndula, aquela mercadoria pode ter chegado pelas mãos de um 'chapa'. Muitos olham para a gente na rodovia e pensam que a gente não faz nada, mas fazemos muito. Nosso trabalho é pesado. Às vezes, somos agredidos verbalmente, mas nosso objetivo é trabalhar e estamos todos os dias aqui para isso”, concluiu Emerson Ricardo Ramos de Azevedo, de 46 anos, que há 14 trabalha como "chapa".

Legislação
A lei nº 12.023/2009 dispõe sobre as atividades de movimentação de mercadorias em geral e sobre o trabalho avulso, que são as desenvolvidas em áreas urbanas ou rurais sem vínculo empregatício, mediante intermediação obrigatória do sindicato da categoria, por meio de acordo ou convenção coletiva de trabalho para execução das funções.
A lei também diz que a remuneração, a definição das funções, a composição de equipes e as demais condições de trabalho serão objeto de negociação entre as entidades representativas dos trabalhadores avulsos e dos tomadores de serviços.
São atividades da movimentação de mercadorias em geral: cargas e descargas de mercadorias a granel e ensacados, costura, pesagem, embalagem, enlonamento, ensaque, arrasto, posicionamento, acomodação, reordenamento, reparação da carga, amostragem, arrumação, remoção, classificação, empilhamento, transporte com empilhadeiras, paletização, ova e desova de vagões, carga e descarga em feiras livres e abastecimento de lenha em secadores e caldeiras; operações de equipamentos de carga e descarga e pré-limpeza e limpeza em locais necessários à viabilidade das operações ou à sua continuidade.
FONTE: G1 
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