Caminhoneiros convivem com a insegurança nas estradas federais de Santa Catarina

O que era para ser mais uma viagem de trabalho ao estado de São Paulo acabou virando um pesadelo que mudou para sempre a vida do caminhoneiro Wilson Soares Floriano, 43 anos. Ele pernoitava, dentro de seu caminhão em uma parada a poucos metros da praça de pedágio da Autopista Litoral Sul, em Garuva, quando foi vítima de um assalto. Ao ser abordado por dois homens armados, o motorista reagiu e acabou espancado.A violência foi tamanha que o motorista teve traumatismo craniano e perdeu massa encefálica. A gravidade das lesões ao cérebro fez com que Wilson perdesse também os movimentos do lado esquerdo do corpo.
O assalto foi registrado na madrugada do dia 3 de abril. Wilson ficou internado por dez dias no Hospital Regional de Joinville. Agora, o caminhoneiro se recupera em casa, na cidade de Tubarão, ao lado da mulher, da filha de 24 anos, das gêmeas de 4 e do caçula de 10 meses. Lesionado e traumatizado diante da violência vivenciada Wilson já decidiu: vai largar a boleia e vender o caminhão. “Trabalho como caminhoneiro há 20 anos. Nunca tinha passado por nada parecido. Agora estou aqui com meu lado esquerdo todo estragado. Preciso sustentar minha família, e não tenho mais condições físicas nem psicológicas de voltar a dirigir meu caminhão”, lamenta Wilson.
Ele lembra que naquele fim de semana tinha saído cedo de Tubarão para levar uma carga de pisos às cidades de São Paulo, Itupeva, Cordeirópolis e Avaré. Ao passar por Garuva, já à noite, um dos pneus do caminhão estourou. “Como já era tarde, achei melhor parar o caminhão em um lugar aparentemente seguro dormir, descansar, para no dia seguinte resolver o problema e seguir viagem. Nunca tinha parado naquele ponto. Como era claro e estava praticamente ao lado do pedágio pensei estar seguro”, descreve.
Ledo engado. Por volta das 2h, dois homens bateram na janela e anunciaram o assalto. “Não sei o que me deu, fiquei despertado, peguei o martelo que guardava na cabine e fui para cima deles. Eles atiraram contra mim, mas por Deus, a bala falhou. Apanhei muito, e agora fiquei neste estado, com o copo paralisado”, lamenta.
Trechos na divisa de estados são mais preocupantes
Na rota do caminhoneiro de Tubarão estava um dos trechos mais temido pelos profissionais da boleia: BR-101 entre Itajaí e Garuva, seguindo pela BR-376 entre Guaratuba e Curitiba, e rodovia BR-116, a Regis Bittencourt, que liga a capital paranaense a São Paulo. “É um trecho complicado, não há paradas seguras, tem serra onde temos que reduzir a velocidade e a fiscalização da PRF é pequena. Quem faz esta rota, tem medo. Conheço muitos colegas que já foram assaltados neste trecho”, comenta Wilson.
O colega de profissão Paulo Henrique da Silva, 33 anos, também ficou em apuros neste trecho. “Foi em 2012, na cidade de Braço do Turvo. Eu estava saindo do posto no Paraná, na madrugada, quando três meliantes armados me renderam. Sob a mira de uma pistola eles me ameaçaram o tempo todo. Diziam que iam atirar, se eu bloqueasse o caminhão. Um carro dava cobertura a eles. Me levaram até um campo de futebol, em uma estrada vicinal já no estado de São Paulo. Lá fiquei amarado e amordaçado enquanto cerca de dez, 20 pessoas com mais de dez carros saqueavam a carga de tecidos que carregava. Eles esperavam que eu estivesse carregado com televisores. Foram momentos de horror”, recorda Silva que há 11 anos corta as estradas do Brasil.
Para ele os perigos e a violência que os caminhoneiros enfrentam são grandes. “A gente não tem mais medo. Temos pânico. Eu não paro mais onde está muito escuro, ou onde não conheço. Tento viajar só durante o dia. Quando saio de casa para uma jornada, sempre é muito difícil. Minha família e eu temos a sensação de que não vamos mais se encontrar, a cada despedida”, alega Silva que é casado e tem dois filhos.
Mais de 200 ocorrências em cinco meses
O fluxo de caminhoneiros é intenso em Santa Catarina e isso atrai os criminosos. Segundo a PRF (Polícia Rodoviária Federal) só no trecho da BR-101 entre o posto da PRF de Barra Velha, e ao posto do Alto da Serra, no Paraná, cerca de 200 ocorrências de assaltos foram registradas de novembro de 2015 a abril de 2016.
Na maioria dos casos, as vítimas são os caminhoneiros. “Os criminosos não querem a carga, nem o caminhão. Nestas ações eles querem dinheiro e pertence dos motoristas. São quadrilhas da região que armadas rende o motorista, pegam o que querem, e fogem muito rapidamente se embrenhando em meio à mata”, esclarece o chefe da 3º Delegacia da Polícia Rodoviária Federal, André Ortega.
A Polícia Rodoviária Federal garante que o trabalho de fiscalização e prevenção ao longo das rodovias está sendo feito, mas o baixo efetivo é um fator que muitas vezes compromete as operações. “Estamos atuando em parceria com a Polícia Civil dos dois estados. Mapeamos um grupo de 50 pessoas suspeitas de atuarem nestes crimes. Na semana passada, a PRF do Paraná prendeu quatro pessoas. Armas bastante parecidas com as relatadas pelas vítimas, também foram apreendidas. Temos equipes descaracterizadas que fazem operações estratégicas para evitar estes crimes e punir os responsáveis”, afirma Ortega.

Garuva e Guaratuba no alvo dos bandidos
O PRF Everson Feuser diz que em nossa região, o trecho que mais preocupa são os dez quilômetros antes e depois da praça de pedágio de Garuva. “Os criminosos aproveitam a divisa dos dois estados e o conhecimento que tem da mata e das estradas daquela região para praticarem os crimes e fugirem rapidamente. Muitas das quadrilhas são formadas por menores. São pessoa de natureza criminosa que não tem medo da polícia, nem da Justiça. É uma sensação de impunidade que faz com que eles continuem atuando deliberadamente”, pontua Feuser.
A Polícia Civil de Garuva investiga os casos. Segundo a delegada Inara Drapalski, o envolvimento de adolescentes e a velocidade com que estas quadrilhas agem e se reorganizam dificultam a investigações. “Sabemos que estes criminosos moram em Garuva e Guaratuba. São pessoas daqui, muitos envolvidos em famílias que tem histórico de saquear caminhões. Dez pessoas foram presas nas últimas semanas aqui em Garuva, mas muito acabam sendo soltos pela Justiça e voltam a cometer os crimes na semana seguinte”, diz a delega.
A delegada cita que as vítimas não tem sido apenas os caminhoneiros. “Só no feriado da Páscoa recebemos sete boletins de ocorrências de motoristas de automóveis que foram assaltados quando estavam na fila para pagar a taxa de pedágio. Eles assaltam o motorista, e fogem para o mato. Para evitar estas ações, estamos fazendo várias operações em conjunto com a PRF”, completa.

Casos se multiplicam
Só nesta semana dois caminhoneiros foram assaltados no mesmo lugar onde seu Walter foi espancado, ao lado do Pedágio de Garuva. No dia seguinte a ação era possível ver os restos de vidros dos veículos, estilhaços no pátio de uma loja de conveniência. No início da semana, em Penha, um caminhoneiro foi rendido e levado até Massaranduba, onde ficou por cinco horas amarados em meio ao mato.
Na madrugada da última quinta, dois homens armados renderam um caminhoneiro enquanto ele dormia em Balneário Piçarras. “Eles entraram no veículo, instalaram um chupa cabras para inibir o rastreador. Com uma arma apontada para mim, seguiram em direção a Curitiba. Ao se aproximar da praça de pedágio de Araquari, viram a viatura da PRF parada no posto. Acuados, eles encostaram o caminhão e fugiram em direção ao mato”, relatou o caminhoneiro identificado como Áureo à PRF. Ele transportava uma carga de polietileno, produto de alto valor comercial.
Na madrugada desta quinta equipes da PRF fez várias operações no trecho para inibir os assaltos. Em Garuva, três suspeitos foram abordados. Após serem revistados e não ter nenhuma restrição legal contra os jovens eles acabaram liberados. “Pedimos que as vítimas não hesitem em procurar a PRF mais próxima para relatar a ocorrência. Assim, o caso é encaminhado à Polícia Civil e pode ser investigado. O telefone da PRF é o 191.
FONTE: ND Online 
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